“OS SAUDOSOS POSTAIS”

“OS SAUDOSOS POSTAIS”

Crónica publicada no Jornal de Mafra

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OS SAUDOSOS POSTAIS

ALICE VIEIRA

 

Nestes últimos dias tenho-me sentido muito velha. Muito velha mesmo.

Não, não tenho novas maleitas, não me doem as costas mais do que já doíam, não sinto mais dificuldade em acartar com a sacaria do supermercado, não oiço nem vejo pior do que até aqui, e lembro-me do nome de todos os meus amigos (e dos outros também…)

Nada de físico, portanto.

Tudo começou há dias quando, ao folhear a “Sábado” (passe a publicidade), fui alertada, logo no artigo de abertura, para o facto de a capa daquele número ser diferente, inovadora, produto da riqueza e dinâmica que as revistas ainda conseguem ter num tempo em que, ao que parece, os espíritos mais pessimistas pensam que as revistas em papel estarão condenadas a desaparecer.

Até aqui, tudo bem, considero-me razoavelmente optimista (às vezes custa, confesso…) e sou e serei sempre acérrima defensora de revistas e livros em “suporte papel” — como agora se diz. Embora não enjeite o on-line, como se prova.

O pior veio a seguir.

Ao explicar a novidade da capa, na horizontal, escrevia-se: “é a única forma de recriar os saudosos postais que, ainda não há muitos anos, serviam para comunicar com os namorados ou com a família quando se rumava ao Algarve para férias.”

Os saudosos postais.

Que ainda não há muitos anos serviam para comunicar.

Ora eu pertenço àquela espécie em vias de extinção (ou se calhar já extinta, eu é que não dei por nada) que ainda dá um trabalhão dos diabos aos correios, onde toda a gente me trata como se fosse da família…

Mando e recebo, normalmente, uma média de cinco postais por dia. Mas há dias em que a safra até dá gosto ver…

Dos sítios mais estranhos e para os sítios mais estranhos (quando, no Natal, mando as habituais encomendas e cartas para o Tchad, ou para o Darfur, por exemplo, há sempre um funcionário que pergunta: “ e chega lá?” E eu digo que sim, que chega sempre, às vezes com mais de um mês de atraso, mas pronto.)

 

Mas tirando esses destinos estranhos—mando postais para todos os amigos quando estou fora, quando estou de férias, quando eles fazem anos (de idade, de casados, de namorados, de pais, de avós, etc, etc…), no dia do/a santo/a do seu nome, no Natal, na Páscoa, e, sobretudo, quando me apetece. O meu amigo Eduardo, do Porto, ou o meu amigo Manel Freire, por exemplo, pertencem a esse grupo daqueles a quem escrevo (e me escrevem…) apenas porque sim. Que—convenhamos—é a melhor e a mais forte das razões.

E ai dos meus amigos e familiares que não façam o mesmo comigo. A minha amiga Maria, quando está na praia, manda o postal dentro de um envelope—e enfia lá para dentro umas conchinhas minúsculas. O meu querido João, missionário no Tchad, manda-me também o postal em envelope—com areia lá dentro. A Ana Paula manda-o juntamente com folhas secas. E a Cristina, nos postais que me manda lá da ria, nunca se esquece de escrever, em letras bem avantajadas,” beijinhos, Serginho!”—o nome do meu carteiro, que também é nosso amigo no Facebook… E meu querido Ricardo, que anda agora em lua-de-mel, manda-me postais de todas as cidades de Itália por onde passa. Em lua de mel, leram bem????

E lá vou habituando a geração dos netos a fazer o mesmo- como habituei a geração do pai. (Ficou famoso o postal que o meu filho, aos 8 anos, me mandou de Coimbra, onde estava num torneio de xadrez: “Mãe, não tenho nada para dizer. Beijos”)

E, evidentemente, que já tenho uma legião de “agarrados ao vício”. Quando, por qualquer motivo, me atraso a enviar um postal de parabéns—há logo quem mande um SMS a refilar:” então, o meu postal?” Ou, quando me deixo levar pela facilidade e rapidez de um mail e escrevo meia dúzia de frases, a resposta é sempre “está bem…mas quero postal!”

Claro que o e-mail foi uma grande invenção, como é que podíamos viver sem ele, sem a sua rapidez em mandar mensagens, ou informações, ou avisos, ou perguntas de que necessitamos respostas imediatas.

Mas não consegue criar estes laços que só o contacto físico com o papel consegue.

São os amigos que estão mais perto de nós.

Somos nós que estamos mais perto deles.

Mesmo com skype incluído.

Porque o vidro é sempre frio.

 

 

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A publicação destas cónicas é uma parceria entre os Retratos Contados e o Jornal de Mafra.

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